O que comiam os marinheiros na Era das Velas?

O que comiam os marinheiros na Era das Velas?

Navegar num navio de guerra ou mercante de madeira através de um oceano nos séculos XVII, XVIII ou início do XIX era apostar a própria vida contra o mantimento a bordo. Os alimentos frescos apodreciam em poucos dias; uma viagem podia durar meses sem avistar terra. O que mantinha as tripulações vivas era uma dieta construída inteiramente em torno da conservação — monótona, muitas vezes desagradável e, por vezes, mortal por si só.

Bolacha de bordo: o alicerce comestível

O alimento básico era a bolacha de bordo, também chamada de hardtack — um disco achatado e duro como pedra, feito de farinha e água e cozido até restar quase nenhuma humidade, para durar anos. Os marinheiros mergulhavam-na em líquido ou partiam-na contra a mesa para a tornar mastigável. O seu grande inimigo era o tempo: armazenada, a bolacha ficava crivada de gorgulhos e larvas, que os marinheiros faziam sair batendo com ela na mesa — ou simplesmente comiam no escuro para não os ver. Uma bolacha bem feita, mantida seca, podia sobreviver uma década — e é precisamente por isso que alimentou as marinhas do mundo durante séculos.

Cavalo salgado e ervilhas

A proteína vinha da carne de vaca e de porco salgadas, embaladas em barris de salmoura tão forte que a carne se conservava anos. Era tão dura e salgada que os marinheiros lhe chamavam "cavalo salgado", e tinha de ser demolhada — por vezes rebocada ao mar dentro de uma rede — antes de sequer ser comestível. A acompanhar vinham ervilhas secas, fervidas num pudim ou sopa espessa; aveia cozinhada numa papa chamada burgoo; e rações de queijo e manteiga que muitas vezes já estavam rançosas quando se abriam. Certos dias da semana eram os "banyan days", sem carne por regulamento, em que a tripulação se arranjava com queijo, bolacha e ervilhas.

A ração diária

As marinhas alimentavam as tripulações segundo uma tabela fixa. A dotação da Marinha Real, por exemplo, concedia a cada homem uma quota semanal definida — cerca de meio quilo de bolacha por dia, litros de cerveja e porções medidas de carne salgada, ervilhas, aveia, manteiga e queijo, alternadas ao longo da semana. No papel, eram mais calorias do que muitos trabalhadores recebiam em terra, o que tornava o serviço naval atraente apesar dos perigos. Na prática, a qualidade era outra história, e suspeitava-se largamente que o comissário encarregado das provisões roubava aos homens para encher os próprios bolsos — uma queixa por trás de muitas discórdias a bordo.

A bebida diária — e o grogue

A água guardada em barris de madeira azedava depressa e ganhava limo, por isso os navios levavam álcool como alternativa mais segura e animadora. A Marinha Real distribuía cerveja e, nas viagens longas, rum. Em 1740, o almirante Edward Vernon, preocupado com a embriaguez, mandou diluir o rum em água — uma mistura que herdou a sua alcunha "Old Grog" e ficou famosa como grogue. Aguado e, mais tarde, temperado com sumo de limão ou lima e açúcar, o quinhão diário era um dos poucos prazeres da vida a bordo, servido ao brado de "up spirits" com um cerimonial que a tripulação guardava ciosamente.

O grande assassino: o escorbuto

O mais mortífero na dieta do marinheiro era o que lhe faltava. Meses sem fruta nem legumes frescos traziam o escorbuto — uma carência de vitamina C que causava gengivas sangrentas, feridas que voltavam a abrir, dentes a apodrecer, exaustão e morte. Nas longas viagens de exploração, o escorbuto podia matar mais homens do que as tempestades, os naufrágios e o inimigo juntos.

A viragem chegou em 1747, quando o cirurgião naval James Lind conduziu um dos primeiros ensaios clínicos controlados da história a bordo do HMS Salisbury e descobriu que os marinheiros a quem davam laranjas e limões recuperavam de forma espetacular. A adoção foi frustrantemente lenta — foram precisas décadas e a defesa de médicos como Gilbert Blane até que, no final do século XVIII, a Marinha Real passasse a distribuir sumo de citrinos por norma. A mudança transformou o poder naval e valeu aos marinheiros britânicos a alcunha duradoura de "limeys". O capitão James Cook, por seu lado, manteve o escorbuto à distância nas suas viagens ao Pacífico em parte por insistir que as tripulações comessem chucrute e outros antiescorbúticos — e por impor implacavelmente limpeza e dieta.

Rancho, cozinha e o cozinheiro

A comida organizava a vida a bordo. As tripulações dividiam-se em ranchos de cerca de oito homens que recebiam as rações, cozinhavam e comiam juntos, revezando-se como "cozinheiro do rancho" para preparar a comida do grupo e levá-la de e para o fogão da cozinha do navio. O próprio cozinheiro de bordo era muitas vezes um marinheiro inválido ou reformado recompensado com o posto, e não um chefe formado, e o grande fogão de ferro fervia a maior parte dos alimentos em enormes caldeiras de cobre — razão pela qual a fervura dominava a ementa de bordo. Quando um navio chegava a porto, tudo mudava: carne fresca, legumes e água subiam a bordo, e por vezes levavam-se animais vivos para serem abatidos no mar para a mesa dos oficiais.

A mesa dos oficiais e a comida fresca

Nem todos a bordo comiam igual. Enquanto o convés inferior vivia de bolacha e cavalo salgado, os oficiais — e sobretudo o capitão — mantinham as suas próprias reservas, comiam de provisões particulares e levavam frequentemente animais vivos: galinhas para ovos, porcos, cabras para leite, até uma vaca num navio suficientemente grande, fechados a meia-nau e abatidos conforme a necessidade. A mesa de um capitão podia ter carne fresca, pão macio, vinho e conservas que o marinheiro comum nunca via, e um convite para jantar com os oficiais era um verdadeiro privilégio.

A comida fresca, quando chegava, era agarrada com avidez por todos. No porto, os navios embarcavam legumes, carne fresca e água; no mar, as tripulações pescavam, apanhavam aves marinhas e — nas viagens tropicais — prezavam as tartarugas, que podiam ser mantidas vivas no convés durante semanas e davam carne fresca longe de terra. As marinhas experimentaram também antiescorbúticos conservados, como a "sopa portátil", um cubo de caldo desidratado que foi um dos primeiros alimentos de conveniência, além de chucrute e sumo de limão. Estes alimentos frescos e experimentais eram a diferença entre uma tripulação saudável e um hospital flutuante, e os bons capitães zelavam pela dieta dos seus homens tão de perto como pela pólvora.

Resistência dentro de um barril

A dieta do marinheiro era sombria, mas foi também um triunfo da conservação que tornou possível a navegação global. Bolacha, carne salgada, ervilhas secas e um quinhão de grogue não eram apetitosos, mas viajavam — e, uma vez resolvido o enigma do escorbuto, permitiram que os navios atravessassem oceanos e permanecessem meses no mar. Boa parte da Era dos Descobrimentos e dos impérios flutuou, literalmente, sobre sal e bolacha dura, e a humilde bolacha de bordo merece o seu lugar entre os alimentos que mudaram o mundo.

Nota sobre as fontes

Este relato baseia-se em registos de abastecimento naval, diários e memórias de marinheiros e no trabalho de historiadores marítimos sobre a vida e a saúde a bordo. As rações variavam entre marinhas, serviços mercantes e épocas, e o combate ao escorbuto em particular avançou lenta e desigualmente, apesar das provas precoces de Lind — a ciência das vitaminas que explicaria porque os citrinos funcionavam só chegaria no século XX.

Perguntas frequentes

O que comiam os marinheiros na Era da Vela?

Os alimentos básicos eram a bolacha de bordo dura como pedra (hardtack), a carne de vaca e de porco salgadas ("cavalo salgado") do barril de salmoura, ervilhas secas, aveia e queijo — todos escolhidos por sobreviverem meses no mar sem refrigeração.

O que era o grogue?

O grogue era rum diluído em água, introduzido em 1740 pelo almirante Edward Vernon (de alcunha "Old Grog") para travar a embriaguez. Mais tarde temperado com sumo de limão ou lima e açúcar, o quinhão diário era um dos poucos prazeres da vida a bordo.

Como apanhavam escorbuto os marinheiros e como se curava?

O escorbuto vinha de meses sem fruta nem legumes frescos (falta de vitamina C). Em 1747, o cirurgião naval James Lind mostrou que laranjas e limões o curavam; no final do século XVIII a Marinha Real distribuía sumo de citrinos, o que valeu aos marinheiros britânicos a alcunha de "limeys".

Havia gorgulhos na bolacha de bordo?

Sim. A bolacha armazenada ficava muitas vezes crivada de gorgulhos e larvas, que os marinheiros faziam sair batendo com ela na mesa — ou simplesmente comiam no escuro para não os ver.

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